Do porquê do Estado (parte 1)
O bicho homem, em sua versão mais recente, não está nem perto de ser o mais ágil ou o mais forte dos animais. Ouso dizer que sequer está entre as 10 mais bem organizadas sociedades animais. Como então nos tornamos aqueles que desequilibram o mundo natural tamanho a força que exercemos sobre ele?
Os mais supersticiosos, arrogantes, dirão, baseados em seus contos fantásticos, que somos herdeiros ou a obra favorita de (um) ente(s) invisível(is), destinados a submeter todos os outros seres e a própria natureza a nossos caprichos - em alguns casos, até dirão que o(s) amigo(s) imaginário(s) deles determinou(aram) superioridade entre os próprios bicho homem a partir de gênero, cor, origem. Bem, eu acho isso, além de arrogante, engraçado, perigoso e muitas outras coisas que escreverei algum dia a respeito.
Gosto de pensar que somos a fase caótica da evolução. O instante em que as adaptações otorrinolaringologistas nos permite ter uma habilidade vocal que nos dá superpoderes de comunicação que superam em muito nossa superestimada (com todo o respeito que eu tenho por essa senhora) racionalidade e nossa subestimada imaginação. Esse superpoder nos permitiu compartilhar de maneira muito eficaz boas e más idéias após dezenas de milhares de anos e, unindo forças aos nossos polegares opositores, fomos capazes de criar ferramentas capazes de nos permitir driblar inconveniências naturais e compartilhar práticas que nos dão algum domínio sobre o ambiente e os outros seres e uns sobre os outros, para o bem ou para o mal.
Isso faz com que nos afastemos da ordem natural das coisas e torna ridículo fundamentar preceitos da condição humana baseando-se no que é dito natural, já que o pré-requisito de nossa própria existência e “supremacia” neste planeta advém da nossa batalha contra a natureza e até a destruição da mesma (o que é feito ainda, cada vez mais, irracionalmente). Nós não podemos nos dar ao luxo de não afrontar diariamente o mundo como ele é e ainda assim querer discutí-lo como se seguíssemos as regras. Isso nos leva à destruição, sem nada de misticismo, só por um caminho lógico, construído pela irracionalidade e maldade, consequência da primeira.
Sobre a maldade, para que não acabemos a linha de raciocínio em dialética barata (mas já a interrompendo), a definirei como aquilo que só traz benefício exclusivo à pessoa ou grupo que pratica a ação e causa dano a qualquer outro não envolvido. Ignorando aí qualquer tipo de juízo moral. Só danos objetivos.
Essa combinação de fatores, misturada a uma cultura que estimula o não questionamento, desde a educação familiar até o equivocado sistema escolar praticado na maioria dos lugares (onde a autoridade do “detentor” do conhecimento parece ser mais valorizada que um método aristotélico de debate e compartilhamento), cria um exército de bitolados que acabam por assimilar meias verdades, tomar uma entre várias possibilidades já pré-formatadas como única opção e dar mais valor a autores que a idéias e as ramificações que delas podem surgir e, ainda mais importante, suas antíteses.
E como estão do mesmo lado, paradoxalmente, os que querem controle e destruição (ainda que a segunda característica inconscientemente, pela maldade fruto da ignorância ou psicopatia), lamentavelmente faz-se necessário um ente com poder de violência legitimado que contenha o ímpeto animal do bicho que deve ser contido para não destruir (mais do que já conseguiu) o planeta ou sua própria espécie simplesmente.
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